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Artigo Nº 5

Retiro Espiritual

Como Preparação para a morte
Por
Santo Afonso Maria de Ligório

Todos sabem que há de morrer, que se morre uma vez só, e que não há outra coisa de maiores conseqüências que esta, pois do supremo instante da morte depende a eterna felicidade ou a eterna desgraça.Por outro lado é muito difícil fazer no momento da morte o que se deixou de fazer durante a vida; e eis a razão porque muitas pessoas devotas com grande proveito espiritual fazem todos os meses num dia de retiro o exercício da preparação prática para a morte, confessando-se e comungando, como se fosse a última vez, e fazendo em seguida os atos religiosos que é costume fazer naquele último transe.Para isto aqui fica um método de retiro para tal dia e três meditações, que podem servir para se obter maior recolhimento e fervor neste exercício mensal.

I- Método para o dia de retiro
1.Fazer três meditações: uma de manhã, outra de tarde e outra á noite, de meia hora, ao menos, cada uma.
2.Preparar-se por meia hora para a Comunhão e dar ação de graças por outra meia.
3.Duas leituras espirituais de meia hora, uma de manhã e outra de tarde.
4.Duas visitas de um quarto de hora ao SS.Sacramento.
5.O exercício da Via-Sacra.
6.Dois exames de consciências: um sobre os defeitos habituais e o outro sobre todas as faltas cometidas desde o ultimo retiro.
7.Recitar neste dia os três terços do Rosário, cada um na hora mais oportuna.
O restante do tempo empregar-se-á em alguma ocupação que não distraia muito o espírito, procurando guardar, do melhor modo possível, silêncio e recolhimento durante todo o dia.

Meditação Primeira
Valor do Tempo

O tempo é um tesouro que só se encontra nesta vida, pois que na outra não existe, nem no inferno nem no céu. "Oh! se nos fosse concedida mais uma hora!" tal é o grito que no inferno repetem os condenados.Quanto não dariam os infelizes por uma hora de tempo em que pudessem reparar a sua ruína?Mas esta hora não a conseguirão jamais.No céu não há lamentos, nem queixas ou aflições; mas, se os bem-aventurados fossem capazes de se entristecer, seria para eles um tormento, sem duvida, o pensamento de terem perdido nesta vida parte de um tempo tão precioso, em que cada um poderia ter obtido maior grau de glória; mas este tempo também eles não o poderão obter.
Uma religiosa beneditina, depois do seu falecimento, apareceu radiante de glória a uma pessoa, a quem disse que era sumamente ditosa; mas que, se lhe fosse permitido desejar alguma coisa, desejaria voltar á vida e sofrer muito para merecer maior grau de glória; e acrescentou que desejava sofrer até o dia do Juízo todas as dores que experimentara durante a sua última enfermidade, para conseguir ainda que não fosse senão o grau de glória que corresponde ao mérito de uma só Ave Maria.

Afetos e Súplicas

Ó meu Deus! Graças Vos dou por me concederdes tempo para reparar as desordens da minha vida passada.Se me fizésseis morrer neste momento, uma das minhas maiores angústias estaria na lembrança do tempo que perdi.Ah! meu Senhor! Vós destes-me tempo para Vos amar, e eu empreguei-o em ofender-Vos; bem merecia eu que me tivésseis arrojado ao inferno no mesmo instante em que pequei; Vós, porém, esperastes-me, chamaste-me á penitência e me concedestes o perdão.Seja para sempre bendita a vossa misericórdia, que, se não fora infinita, como poderia ter me sofrido?Que, senão Vós, usaria de tanta paciência para comigo?não permitais que por mais tempo deixe de corresponder ao amor de que me haveis dado tantas provas; desprendei-me de tudo o que é terreno; atrai-me inteiramente ao vosso amor, e dai-me a santa perseverança.Amo-Vos, Bondade infinita, e espero amar-Vos inteiramente.Graças vos dou, ó Maria!tendes sido minha intercessora, vós me haveis alcançado o tempo que me resta de vida!Assisti-me, valei-me, fazei que eu o empregue em amar o vosso Filho, meu Redentor, e a vós, minha Rainha e Mãe querida.

Segunda Meditação
Viagem para a eternidade

A fé nos ensina que não temos aqui habitação permanente, mas que vamos em busca do que está por vir.Não é esta a nossa verdadeira pátria, mas apenas um lugar de passagem em direção á eternidade.Assim pois, querido leitor, a casa que habitas não é propriamente tua, mas é uma pousada, da qual, bem cedo e quando menos o pensares, terás de sair.Quando chegar a morte, os teus parentes mais próximos serão os primeiros a fazer-te sair da casa.E qual será então a tua verdadeira morada? Uma cova será morada de teu corpo até no dia de Juízo, e a tua alma irá para o Céu ou inferno, onde hás de viver eternamente.Se te salvares, oh! que felicidade não será a tua!Como é formosa a habitação do Rei do Céu!Os palácios mais suntuosos dos monarcas não passam de simples estábulos comparados com a Cidade Celestial, única que merece o nome de Cidade de perfeita beleza.Ali não haverá desejo algum que fique por satisfazer; estarás na companhia dos santos, da Mãe de Deus, de Jesus; não temerás nem ao menos a sombra do mal; numa palavra, viverás num oceano de delícias e contentamento eterno.Pelo contrário, se te condenares, qual não será a tua desgraça!Serás arrojado ao fogo do inferno, e ali permanecerás abandonado de todos, até do próprio Deus; e por quanto tempo? para sempre.

Afetos e Súplicas

Tal é, senhor, a habitação que tenho merecido pelos desvarios da minha vida, o inferno, onde deveria estar sepultado, desde o primeiro pecado que cometi.Bendita seja para sempre a vossa misericórdia, que me deu tempo de reparar o mal que fiz; bendito seja o Sangue de Jesus, que me concedeu tão insigne favor!Não, meu Deus, não quero abusar mais da vossa paciência.Arrependo-me de todo o coração de Vos ter ofendido, não tanto pelo inferno, que mereci, como por ter ultrajado a vossa bondade infinita.Prefiro a morte que tornar-vos a ofender; amo-Vos, meu Deus, sobre todas as coisas; dai-me a graça de Vos amar sempre e com todas as veras da minha alma.Ó Mara, minha querida Mãe! já que por vossa intercessão alcancei este tempo para fazer penitência, consegui-me uma dor sincera de meus pecados, o verdadeiro amor de Deus, e a perseverança final.

Terceira Meditação
Certeza da morte

A sentença está pronunciada: se és homem, hás de morrer.Tudo nesta vida é incerto; só a morte é certa.Esse menino que acaba de nascer, não podemos saber se será rico ou pobre, se será robusto ou débil, se morrerá jovem ou velho; tudo isto é incerto; mas é indubitável que ha de morrer.Grandes e pequenos, nobres e plebeus, reis e vassalos, todos serão ceifados pela foice da morte.E quando esta chega, não há força que possa resistir-lhe.Pode resistir ao fogo, á água, ao ferro; á morte, nunca.Quando é chegado o término da vida; não é possível adiá-lo nem um só instante: Deus, disse Jó, assinalou a cada homem um tempo que não pode ultrapassar.Ainda quando consigas viver os anos que desejas, virá afinal um dia, e neste dia haverás uma hora que será para ti a última.O que sucedeu aos teus antepassados, isso mesmo sucederá também a ti.De quantas pessoas viviam na tua pátria no princípio do século passado, nem uma só resta; os príncipes e os monarcas, também esses, foram obrigados a deixar este mundo, e deles não resta senão um mausoléu de mármore e uma inscrição que nos diz que ali jazem os seus restos mortais.Pois bem; o que mais importa é procurar não uma fortuna que perece, mas o que é eterno, porque eternas são nossas almas.

Afeto e Súplicas

Ó Deus da minha alma! Quão louco tenho sido! Tantos anos tenho vivido no mundo, e, em vez de alcançar méritos para a outra vida, não tenho feito mais que contrair dívidas para com a vossa justiça.Ó meu Redentor.Dai-me luz e força para regular agora minhas contas.Quem sabe? Talvez a morte esteja bem perto de mim; quero por isso preparar-me para aquele momento que deve decidir da minha ventura ou desventura eterna.Graças Vos dou por me terdes esperado até agora; e visto que me concedeis este tempo, aqui me tendes, meu Deus; dizei-me o que quereis que eu faça; se não começar agora uma vida nova, como poderei na hora da morte esperar o perdão e a entrada no céu? Permiti-me que Vos ame, ó Deus, digno de um amor infinito!Acolhei a quem profundamente arrependido se roja a vossos pés implorando misericórdia.Dai-me perseverança no cumprimento da vossa vontade, dai-me o vosso amor, e depois fazei de mim o que Vos aprouver.Maria, Mãe e esperança minha, da vossa proteção me socorro; nas vossas mãos entrego a minha alma: rogai a Jesus por mim.

Ladainha da boa Morte
Que se poderá recitar no dia do retiro espiritual

Jesus, Deus de bondade, Pai de misericórdia, eu me apresento diante de Vós como o coração humilhado, contrito e compungido: imploro a vossa proteção para a minha última hora e para o que depois dela me espera.
Quando meus pés imóveis me advertirem de que a minha passagem por este mundo está prestes a findar; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando minhas mãos tremulas e entorpecidas já não puderem estreitar o Crucifixo, e a seu pesar o deixarem cair sobre o leito da dor; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando meus olhos anuviados pelo horror de uma morte iminente volverem para Vós seus olhares lânguidos e moribundos; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando meus lábios frios e roxos pronunciarem pela última vez o vosso nome adorável; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando minhas faces pálidas e lívidas causarem lastima e terror aos circunstantes, e os meus cabelos banhados do suor álgido da morte, eriçando-se na minha cabeça, anunciarem o meu fim próximo; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando meus ouvidos, prestes a cerrar-se para sempre ás conversações dos homens, se abrirem para ouvir a sentença irrevogável que decidirá da minha sorte por toda a eternidade; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando minha imaginação agitada por horríveis e espantosos fantasmas ficar sepultada em mortal tristeza, e meu espírito perturbado pelo conceito das minhas iniqüidades e pelo temor da vossa justiça entrar em luta com o anjo das trevas, que pretenderá privar-me da consoladora memória das vossas misericórdias e precipitar-me no abismo da desesperação; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando meu débil coração, oprimido pelas dores da enfermidade, se vir surpreendido pelos horrores da morte e extenuado pelos esforços que fará para resistir aos inimigos da minha salvação; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando derramar as minhas últimas lágrimas, sintomas de minha destruição, recebei-as qual sacrifício de expiação para que eu morra como vítima de penitência; e naquele terrível momento, Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando meus parentes e amigos, reunidos em redor de mim, se enternecerem ao ver o meu lastimoso estado e Vos invocarem em meu auxílio; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando haja perdido o uso de todos os sentidos, quando o mundo tenha desaparecido inteiramente da minha vista, e eu gema nas casas da agonia e nos estertores da morte. Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando os últimos suspiros forçarem minha alma a sair do corpo, aceitai-os como traduzindo o supremo anseio de me unir a Vós; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Quando minha alma, já na extremidade de meus lábios, sair para sempre deste mundo, e deixar o meu corpo lívido, frio, e sem vida, recebei a destruição do meu ser como uma homenagem prestada por mim á vossa divina Majestade; e nesse momento, Jesus misericordioso, tende piedade de mim.
Finalmente, quando minha alma comparecer diante de Vós e vir pela primeira vez o esplendor imortal de vossa Majestade, não me expulseis da vossa presença; dignai-Vos de receber-me no seio amoroso de vossa misericórdia, para que eternamente cante os vossos louvores; Jesus misericordioso, tende piedade de mim.

Oração

Ó Deus, que condenando-nos á morte nos ocultastes a hora e o momento em que devemos morrer, fazei que vivendo em justiça e santidade todos os dias da minha vida, mereça sair deste mundo, escudado com o vosso santo amor; pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo que convosco vive e reina em união com o Espírito Santo.Amém.

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